Avaliação e escalas

PHQ-9: questionário, pontuação e o que fazer com o item 9

Nove perguntas, dois minutos de preenchimento e um número de 0 a 27. O PHQ-9 é simples de aplicar e fácil de interpretar errado. Aqui vão os itens, as faixas, o ponto de corte e a conduta no item 9.

📅 Atualizado em outubro de 2026 ⏱ 9 min de leitura ✍ Equipe Psicoly

Primeira sessão, faltando quinze minutos. Você pede para a paciente responder o PHQ-9 enquanto organiza as anotações. Ela devolve, você soma de cabeça — 14 — e aí vê: no item 9, marcado “vários dias”. A sessão que parecia caminhar para o fim muda de assunto ali. É para esse momento, mais do que para a soma, que vale conhecer bem o PHQ-9.

Abaixo estão os nove itens na tradução oficial para o português do Brasil, a pontuação, as faixas, de onde vem o famoso “10” e o que fazer quando o item 9 não volta zerado. Tudo com fonte — e com os limites ditos em voz alta, porque um questionário de nove linhas não faz diagnóstico de ninguém.

O que é o PHQ-9

O PHQ-9 (Patient Health Questionnaire-9) é um questionário de autorrelato de nove itens que mede a frequência de sintomas depressivos nas últimas duas semanas, com pontuação total de 0 a 27. Ele é o módulo de depressão do PHQ, criado por Robert L. Spitzer, Janet B. W. Williams e Kurt Kroenke a partir do PRIME-MD, com subsídio educacional da Pfizer, e cada item corresponde a um dos nove critérios de episódio depressivo do DSM-IV.

Uma coisa que facilita muito a vida: ele é de uso livre. O site oficial dos autores, o phqscreeners.com, diz que todos os questionários PHQ e GAD-7 e suas traduções podem ser baixados ali e que não é necessária permissão para reproduzir, traduzir, exibir ou distribuir. A versão em português traz a mesma frase no rodapé.

Os 9 itens do questionário PHQ-9

O PHQ-9 pergunta: “Durante as últimas 2 semanas, com que frequência você foi incomodado/a por qualquer um dos problemas abaixo?” Para cada item, a pessoa escolhe entre nenhuma vez (0), vários dias (1), mais da metade dos dias (2) e quase todos os dias (3). Os itens da tradução oficial são:

  1. Pouco interesse ou pouco prazer em fazer as coisas
  2. Se sentir “para baixo”, deprimido/a ou sem perspectiva
  3. Dificuldade para pegar no sono ou permanecer dormindo, ou dormir mais do que de costume
  4. Se sentir cansado/a ou com pouca energia
  5. Falta de apetite ou comendo demais
  6. Se sentir mal consigo mesmo/a — ou achar que você é um fracasso ou que decepcionou sua família ou você mesmo/a
  7. Dificuldade para se concentrar nas coisas, como ler o jornal ou ver televisão
  8. Lentidão para se movimentar ou falar, a ponto das outras pessoas perceberem? Ou o oposto — estar tão agitado/a ou irrequieto/a que você fica andando de um lado para o outro muito mais do que de costume
  9. Pensar em se ferir de alguma maneira ou que seria melhor estar morto/a

Depois dos nove, vem uma décima pergunta: se a pessoa marcou algum problema, quanta dificuldade ele causou para trabalhar, cuidar das coisas de casa ou se relacionar (nenhuma, alguma, muita ou extrema). Ela não entra na soma. O manual dos autores explica que serve como impressão global de prejuízo e ajuda a decidir sobre começar ou ajustar o tratamento.

Como pontuar o PHQ-9

A pontuação do PHQ-9 é a soma simples dos nove itens, cada um valendo de 0 a 3, o que dá um total entre 0 e 27. Não há item invertido nem peso diferente.

Um exemplo inventado, só para ilustrar: três itens marcados como “vários dias” (3 × 1), dois como “mais da metade dos dias” (2 × 2) e três como “quase todos os dias” (3 × 3), com um item em zero. Total: 3 + 4 + 9 = 16.

Dois cuidados práticos. Primeiro, item em branco não é zero: se faltou resposta, pergunte antes de somar. Segundo, some na frente do paciente só se você estiver pronta para falar do resultado na hora. Número dito de passagem, sem contexto, vira rótulo na cabeça de quem ouve.

Interpretação: as faixas de 0 a 27

A interpretação do PHQ-9 usa os pontos 5, 10, 15 e 20 como limites de gravidade leve, moderada, moderadamente grave e grave, segundo o estudo de validação de 2001 e o manual dos autores. A tabela abaixo junta as faixas com o que o manual sugere fazer em cada uma — sugestão escrita para a atenção primária em medicina, o que explica a menção a medicação.

PontuaçãoGravidadeO que o manual dos autores sugere
0 a 4Nenhuma ou mínimaNenhuma ação específica
5 a 9LeveObservar e reaplicar o PHQ-9 no acompanhamento
10 a 14ModeradaPlano de tratamento, considerando aconselhamento, acompanhamento e/ou medicação
15 a 19Moderadamente graveTratamento ativo com medicação e/ou psicoterapia
20 a 27GraveInício imediato de medicação e, se houver prejuízo grave ou pouca resposta, encaminhamento rápido a especialista em saúde mental

Para a psicóloga, a leitura útil é outra: a faixa ajuda a dimensionar a intensidade dos sintomas e a conversar com o médico quando há encaminhamento. Pontuação a partir de 15, por exemplo, é um bom motivo para perguntar se a pessoa tem acompanhamento psiquiátrico. Não é motivo para mudar de abordagem por causa de um número.

Ponto de corte 10: de onde vem

O ponto de corte usual do PHQ-9 é 10: no estudo original de Kroenke, Spitzer e Williams (J Gen Intern Med, 2001), pontuação igual ou maior que 10 teve sensibilidade de 88% e especificidade de 88% para depressão maior, comparada a entrevista com profissional de saúde mental. O manual chama o 10 de “bandeira amarela” (chama atenção para um quadro possivelmente relevante) e o 15 de “bandeira vermelha”.

O número resistiu bem ao tempo. Uma meta-análise com dados individuais de 100 estudos e 44.503 participantes (Negeri e colaboradores, BMJ, 2021) encontrou, no corte de 10, sensibilidade e especificidade de 85% quando a referência era entrevista diagnóstica semiestruturada — e foi esse o corte que melhor equilibrou as duas.

E no Brasil? Há estudo com a versão brasileira. Osório e colaboradores (Perspectives in Psychiatric Care, 2009) avaliaram 177 mulheres na atenção primária e acharam o 10 como corte mais adequado. Santos e colaboradores (Cadernos de Saúde Pública, 2013), com 447 adultos da população geral de Pelotas, chegaram a 9, com sensibilidade de 77,5% e especificidade de 86,7%.

Na prática: eu uso o 10 como alerta, não como portão. Um 8 com item 9 positivo me preocupa mais do que um 13 com sono e cansaço explicados por um bebê de dois meses em casa. O corte serve a estudos populacionais; na sala, quem interpreta é você.

Item 9: quando a resposta não é zero

Qualquer resposta acima de zero no item 9 do PHQ-9 pede avaliação de risco na própria sessão, porque o item é uma pergunta única de triagem e não mede risco de suicídio: o manual dos autores diz que a decisão final sobre o risco real de autolesão exige entrevista clínica. Repare também que ele mistura duas coisas bem diferentes — pensar em se ferir e achar que seria melhor estar morto — e não diz qual das duas a pessoa marcou.

Um roteiro que funciona na prática:

  1. Pergunte diretamente, com as palavras dela. “Você marcou que pensou em se ferir ou que seria melhor estar morta. Me conta como têm sido esses pensamentos?” Rodear o assunto é que deixa a pessoa sozinha com ele.
  2. Explore frequência, intensidade, se há plano, acesso a meios, tentativas anteriores, uso de álcool ou outras substâncias e fatores de proteção.
  3. Defina a conduta conforme o que encontrou: acompanhar mais de perto, envolver a rede de apoio (com o paciente sabendo), articular com serviço de saúde ou, em risco iminente, acionar o SAMU (192). O CVV atende pelo 188, gratuito e 24 horas — vale deixar o número com a pessoa.
  4. Registre na evolução o que perguntou, o que ouviu, o nível de risco e a conduta. Registro de risco sem conduta é o pior dos mundos.
  5. Volte ao assunto nas sessões seguintes. Item 9 positivo uma vez não se resolve em uma conversa.

Se o questionário for respondido fora da sessão — em casa, na sala de espera —, combine antes quando você vai ler. Item 9 positivo lido três dias depois é exatamente o tipo de atraso que dá para evitar.

Limites: triagem não é diagnóstico

O PHQ-9 é instrumento de triagem e de acompanhamento de gravidade; ele não diagnostica depressão. Os próprios termos de uso do site oficial lembram que as respostas precisam ser verificadas pelo clínico e que o diagnóstico de depressão maior exige prejuízo funcional e afastar luto normal, histórico de episódio maníaco e causa física, medicamentosa ou por substância.

Na prática, um PHQ-9 alto pode aparecer em pessoas muito diferentes: alguém em luto recente, alguém com transtorno bipolar em fase depressiva, alguém com uma doença clínica que derruba energia e sono. O número é igual; o caminho, não. O manual também observa que a maioria das traduções é linguisticamente validada, mas poucas foram comparadas a entrevista diagnóstica — a versão brasileira, como vimos, tem estudos.

Uma questão normativa: na avaliação psicológica formal, a Resolução CFP nº 31/2022 admite instrumentos não psicológicos com respaldo científico como fonte complementar (art. 4º), e o FAQ do SATEPSI avisa que concluir sobre condição psicológica apenas com instrumentos não privativos é falta ética. Em resumo, o PHQ-9 entra num laudo como apoio, ao lado da entrevista — nunca sozinho. A diferença entre rastreio e teste está detalhada em escalas de avaliação psicológica.

O PHQ-9 no Psicoly

No Psicoly, o PHQ-9 já vem pronto na conta, como ficha do paciente, e não ocupa a vaga de ficha personalizada do plano. Cada item tem as opções de 0 a 3, a pontuação total aparece sozinha quando todos os itens estão respondidos e a faixa (mínima, leve, moderada, moderadamente grave ou grave) surge junto. O item 9 traz um lembrete: qualquer resposta acima de zero pede avaliação de risco na sessão.

Duas limitações, ditas com franqueza. Alguns enunciados aparecem resumidos em relação à tradução oficial, por causa do tamanho do campo — o sentido é o mesmo, mas se você quiser o texto exato para entregar impresso, use o PDF do site dos autores. E a décima pergunta, a de dificuldade, não está na ficha: se ela for importante para você, anote a resposta na evolução. Aliás, a evolução da sessão tem campo de avaliação de risco (sem sinais, acompanhar, risco alto) com a conduta registrada — é ali que o item 9 positivo deve terminar.

Como o PHQ-9 tem sensibilidade à mudança confirmada, reaplicar ao longo do processo faz sentido. Muita gente aplica junto com a escala GAD-7 na primeira sessão, logo depois da anamnese psicológica. Se quiser ver a soma e a faixa funcionando com um paciente de teste, crie uma conta grátis.

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Perguntas frequentes

O que significa pontuação 10 no PHQ-9?

Dez é o início da faixa moderada (10 a 14) e o ponto de corte mais usado para sugerir depressão clinicamente relevante. No estudo original, quem pontuou 10 ou mais teve sensibilidade e especificidade de 88% para depressão maior, mas o número pede avaliação clínica, não fecha diagnóstico.

O PHQ-9 diagnostica depressão?

Não. Ele é um questionário de triagem e de acompanhamento da gravidade dos sintomas. O diagnóstico exige avaliação clínica, incluindo prejuízo funcional e a exclusão de luto, episódio maníaco e causas físicas ou por substâncias.

Preciso de autorização para usar o PHQ-9?

Não. O site oficial dos autores informa que não é necessária permissão para reproduzir, traduzir, exibir ou distribuir os questionários PHQ e GAD-7, e a tradução em português traz a mesma frase. Use a versão oficial em português do Brasil.

O que fazer quando o paciente marca o item 9 do PHQ-9?

Avalie o risco na própria sessão, perguntando diretamente sobre os pensamentos, plano, meios e tentativas anteriores. Defina a conduta, registre na evolução e acompanhe nas sessões seguintes; em risco iminente, acione o SAMU (192). O CVV atende pelo 188.

De quanto em quanto tempo reaplicar o PHQ-9?

Não há norma do CFP fixando intervalo. Como o questionário cobre as últimas duas semanas, reaplicar em intervalo menor repete boa parte do mesmo período; uma rotina razoável é a cada quatro semanas e nos momentos de decisão do tratamento, como mudança de frequência ou alta.

O PHQ-9 é validado no Brasil?

Há estudos com a versão brasileira. Osório e colaboradores (2009) indicaram corte de 10 em mulheres na atenção primária, e Santos e colaboradores (2013), com adultos da população geral de Pelotas, chegaram a corte de 9.

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